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Com todo este discurso prévio pretendo demonstrar como, apesar de ter emitido juízo de valor extremamente subjectivo logo no início do texto, este texto baseia-se em critérios objectivos, atrevo-me mesmo a considerar Apatow um “Autor”, sim com a maíuscula, dada a sua persistência em tratar certos temas e centrar as suas obras, como realizador ou produtor, em tipos de personagens muito específicos. Agora com “Forgetting Sarah Marshall” encontramos novamente o jovem adulto. Desta vez é um jovem adulto de sucesso, a trabalhar numa área que escolheu, apesar de não ter toda a liberdade criativa que desejaria, e encontramos outro momento marcante para a vida masculina: o abandono da namorada de longa-duração. Peter Bretter é o compositor de banda sonora de uma série televisiva de sucesso, da qual a namorada é a estrela e a Sarah Marshall do título. Destroçado pela ausência da namorada decide tirar um período de férias no Havai onde, enorme azar para ele, mas motor do filme, volta a encontrar Sarah, também de férias mas com o novo namorado, o rocker britânico Aldus Snow.Nick Stoller dobra como argumentista e actor principal, ele que já havia trabalhado com Apatow em “Freaks...” e em “Koncked Up” e pode ser visto na interessante série “How I Met Your Mother”. Sendo o argumentista o principal actor, não se pode deixar de referir o coração e alma com que Stoller agarra a personagem. No trabalho de actores há pouco mais a destacar (já vi o filme há cerca de dois meses, posso não me estar a lembrar de todos), com interpretações competentes da maioria do elenco e um Russell Brand fantástico como Snow mas que me parece ser apenas uma persona que este comediante britânico já adoptou (uma recente entrevista levo-me a esta conclusão). De facto, as personagens parecem ter sido adaptadas à personalidade dos actores com Jack Mcbrayer a interpretar novamente um inocente vindo do sul dos Estados Unidos, tal como em 30 Rock, Paul Rudd é o descontraído instrutor de surf e Mila Kunis é a simpática recepcionista do Hotel. Posso andar longe da definição psicológica destes actores mas as persongens que normalmente interpretam apresentam estas características. Estaremos perante um caso de type-casting aplicado a todo um elenco de um filme? Fica a dúvida no ar, pelo menos para já.
Deixando a parte saborosa e que me vai merecer mais elogios para mais à frente, passemos pela realização e aqui gostaria de colocar uma enorme dúvida: qual é o estilo de realização para a comédia? Visto sempre como um género menor, poucos são os actores ou filmes distinguidos ao mais alto nível nesta categoria e a dúvida perpetua-se neste filme. A realização é extremamente funcional, sem qualquer rasgo que lhe possa ser apontada, de tal modo que o nome do realizador me escapa neste momento. Valerá talvez uma investigação aprofundada, quiçá uma tese de mestrado nos próximos anos, identificar códigos e marcas de realização no género comédia... Existem alguns problemas de raccord, nomeadamente numa cena em Peter tem um copo e, por artes mágicas, o copo muda de mão em cada troca de plano. Nada de muito grave e que possa de alguma estragar aquilo de que vou escrever a seguir.
Tal como em todas as outras obras com o dedo da linha de montagem de Judd Apatow, “Sarah Marshall” está carregado de referências à cultura pop. A começar logo nos primeiros planos do filme, com a apresentação da série onde a personagem titular trabalha, “Crime Scene: scene of the crime”, em que Sarah Marshal é uma detective especializada em Ciências Forenses, especialização que usa para capturar criminosos, em parceria com um outro detective, este com uma pose excessivamente cool, sempre de óculos escuros na cara e com um one-liner pronto a sair a qualquer instante, antes de entrar a banda sonora. Uma clara referência a... Vá lá, eu sei que vocês sabem... Não, não vou dizer, deixem lá nos comentários as hipóteses e dou um chupa a quem adivinhar primeiro.Em frente, a sátira às celebridades do mundo do entretinemto é o ponto forte deste filme. A começar pela mimetização das populares séries de investigação, Aldus Snow é depois apresntado como uma versão ainda mais exagerada de Bono e a sua suposta consciência social. No entanto, como a consciência social já não vai estando na ordem do dia, Snow é eco-consciente e a sua canção de despertar de mentes é “Alguém tem de fazer alguma coisa”, um hino a toda a piroseira pop que vai povoando os tops dos mais vendidos. O filme prossegue, alegremente destruindo ícones pop até, alguns minutos depois do inicio da película, somos brindados com a nudez frontal de Nick Stoller, mostrando como o resto do filme seguirá o registo do Humor de Humilhação.
Há um problema com os filmes de Judd Apatow no mercado cinematográfico português. A que público devem ser dirigidos? Até aqui temos assistido a traduções ignóbeis que desvirtuam completamente a percepção que espectador pode ter do conteúdo do filme. Super-Baldas (acompanhado de uma campanha de spots publicitários horríveis) e “Um Azar do Caraças” são dois exemplos de traduções que apelam a um público mais familiarizado com a saga American Pie e com o seu humor debragado e sem qualquer neurónio que o sustente. Nos filmes de Apatow encontramos, à primeira vista, o mesmo tipo de humor que sobrevive através de funções corporais em situações inapropriadas e innuendos sexuais de baixa estirpe. Sim, estas características estão lá, à superficie, mas mascaram uma camada inferior de sátira bem pensada (o trabalho de Stoller como argumentista deste filme é assinalável) e, sobretudo, de momentos importantes na existência de qualquer ser humano que acabam por demonstrar uma sensibilidade de tratamento assinalável. Como prova de ma campanha publicitária mal direccionada e da escolha do genial título nacional de “Um belo par... de patins” temos as meninas me fizeram companhia enquanto espectadoras na exibição deste filme. Olhando de relance a conclusão que se podia tirar era estar na companhia de um grupo de adolescentes de 14-15 anos, sem capacidade de encaixe para a maior parte das referências pop que, claramente, foram ao engano. Deixo-vos com a pérola que ouvi aquando da nudez frontal do actor principal, precedida de inspirações de espanto: “Não vi!”...
ERRATA: onde se lê Nick Stoller, referindo-se ao actor principal e argumentista do filme, deve ler-se JASON SEGEL. As desculpas ao visado.
ERRATA: onde se lê Nick Stoller, referindo-se ao actor principal e argumentista do filme, deve ler-se JASON SEGEL. As desculpas ao visado.
2 comentários:
Problemas de raccord prendem-se com regras de 180º e 45º graus, conhecidas de realizadores mais ou menos experientes, e que são propositadamente cometidos hoje por todos os inspirados no Dogme 95 e outras vagas. O que queres dizer, parece-me, é "problemas de continuidade" - quando algo que devia continuar no mesmo espaço-tempo desaparece ou aparece na mudança de plano...
Ah, e sobre referências ao Chuck Norris do século XXI, David Caruso, ver no Youtube a fantástica imitação do saudoso Jim Carrey...
(quero um da Chupa-Chups dos novos, maçã, ananás e manga)
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