28 agosto 2007

“Mr Brooks”
De: Bruce A. Evans
Com: Kevin Costner, William Hurt, Demi Moore, Dane Cook
EUA, 2007, 120min, Cor.

Earl Brooks acaba de ser eleito Homem do Ano pela Câmara de Comércio da cidade onde vive. No entanto, nem tudo está bem na sua vida. Sem o conhecimento da sua mulher, Mr. Brooks é um serial killer, fora do activo há cerca de dois anos, mas não deixa de o ser. Mr. Brooks mata pessoas pelo puro prazer, levado a isso pelo seu alter-ego, ao qual dá o nome de Marshall.

É dificil ver um filme novo com o Kevin Costner. Nunca se sabe muito bem o que vai sair da tela: se um “Danças com Lobos” ou um “Carteiro” e, talvez por isso, este filme tem tido uma recepção tão mista por parte do público e dos críticos especializados. Com um argumento muito sumarento, cheio de pormenores que podem escapar à primeira vista e com Demi Moore também no elenco, este filme tem os elementos mais do que necessários para falhar mas, no entanto, não falha! É verdade que a primeira aparição de William Hurt no ecrã poderia ter sido retardada mas acaba por fazer sentido que surja nos primeiros cinco minutos de filme quando nos apercebemos que faz parte de uma estória já com um passado, que não começa no momento em que o projector se liga, mas a que apenas somos convidados a assistir uma parte (Costner já falou numa trilogia). O que à partida parece um erro: apressar a apresentação ao publico de uma das personagens fulcrais para o filme acaba por se revelar um acto normal na existência tortuosa de Mr. Brooks, assombrado sempre pelo desejo secreto de matar e sentir a emoção, o prazer que lhe advém desse poder sobre as vidas de outros. Apesar de parecer fugir um pouco ao ponto forte que é a comunicação entre Mr Brooks e Marshall, é inevitável não notar o grande rapport entre Kevin Costner e William Hurt, que chegam mesmo a proporcionar alguns dos melhores momentos do filme. Este relacionamento leva-nos para o campo do thriller psicológico, o que normalmente indica que não haverá grande espaço para personagens secundárias.


Não gosto da Demi Moore. Acho-a uma má actriz que só teve grande sucesso comercial sem nunca atingir a condição de Actriz. Deixo considerações sobre o sucesso dela para outras pessoas. Neste filme ela interpreta a detective que persegue Earl Brooks. Tal como muitos pormenores nesta película, a sua primeira aparição parece descontextualizada (afinal, o que é que nos interessa saber quem investiga este caso, e ainda por cima, o divórcio dela), mas nem tudo o que parece é. O processo de divórcio da detective Tracy Atwood irá desempenhar uma grande papel no desenlace deste filme e Demi Moore consegue defender-se razoavelmente.
É complicado escrever sobre este filme devido à sua enorme complexidade de estórias e pormenores que terão uma influência vital no desenrolar da trama. Penso ser este o maior elogio que se pode fazer a “Mr Brooks”: o facto de estimular o espectador, não lhe dar descanso e chegar mesmo a apresentar personagens extremamente secundárias vindas do nada que tinham apenas sido referidas em conversas passageiras.


Mr Brooks não é o serial killer habitual que a cinematografia norte-americana nos apresenta. Não tem nenhuma capacidade extraordinária, nenhum poder sobrenatural e, à primeira vista, a patologia que apresenta não é causada por nenhum trauma de infância. É um tipo normal, que planeia minuciosamente os seus crimes com acesso à internet e que, “simplesmente”, gosta de matar. Aliás, é este um dos grandes temas deste filme: a nossa relação com os nossos vícios, como os tentamos controlar e a forma como nos podem destruir se não tivermos cuidado. O outro tema que podemos apanhar no sub-texto deste filme é bastante mais evidente: a relação entre Pais e Filhos. A forma como Mr Brooks receia que a filha também seja agora uma homicida e o medo profundo que sente que ela o tente matar para herdar mais rapidamente o negócio da família e a comparação com o relacionamento da detective Atwood com o seu próprio pai é uma das situações mais marcantes do filme.

Como já escrevi em cima, é muito díficil saber o que esperar de um filme com Kevin Costner. Um actor que conta com tantos flops como sucessos no currículo torna-se muito díficil de seguir e ainda mais de avaliar. Costner parece ter a sua carreira sempre à espera do falhanço que o vai colocar definitivamente no “Lado Escuro da Força”, no entanto não é este “Mr Brooks” onde até consegue uma performance digna de aplauso, mantendo sempre um registo de contenção na interpretação de um serial killer com problemas de consciência e medo de que a familia venha a descobrir aquilo que faz nos tempos livres.
Ainda uma palavra para a banda sonora de Ramin Djawadi, que contribui em muito para o ambiente sombrio que se vive durante todo o filme e que merece ser escutada sem auxiliares visuais.

Divertido nos momentos certos, sem medo de tratar o espectador como uma criatura inteligente que não está na sala de cinema de cinema apenas para comer pipocas, “Mr Brooks” surpreende até pelo facto de o realizador responsável ter apenas no currículo uma comédia infeliz do início dos anos 90. Estimulante e sem medo de andar na fina linha entre o thriller e o rídiculo, um filme a rever quando possível.

22 agosto 2007

Um oásis no deserto

“Ratatouille”
Real: Brad Bird
Vozes: Patton Oswalt, Lou Romano, Janeane Garofalo, Ian Holm, Peter O'Toole
Animação, EUA, 2007, 110 min.

Remy tem um dom invulgar: consegue um olfacto apuradíssimo que lhe permite sempre escolher os melhores ingredientes para cada prato a cozinhar. Só há um senão: Remy é um rato. Perdido do seu clã e acabado de chegar às paredes do mais famoso restaurante de Paris, vai perseguir o seu sonho: tornar-se num dos maiores Chef de França.

Tornou-se lugar comum dizer que qualquer filme que saia da Pixar é um clássico instantâneo, um filme magnifíco, digno de figurar no Panteão dos Maiores de Todos os Tempos. Não sendo tão exagerado, a verdade é que o estúdio do candeeiro tem mantido um nível de qualidade impressionante durante os cerca de dez anos de trabalho que levam. Uma reputação que levou um pequeno safanão com o menos bom “Cars”, do ano passado. Não que fosse mau, mas fiquei com a impressão que passou um pouco ao lado do público.
Regresso anunciado neste ano com Ratatouille, com a recuperação do realizador Brad Bird, responsável pelo fantástico “The Incredibles”. Brad Bird tem um passado noutro nome grande da animação para adultos (sem conotações pornográficas). Foi consultor durante cerca de dez anos nos Simpsons e ajudou mesmo no desenvolvimento da série para o formato de meia hora que conhecemos agora.
Não vou descrever o prodígio técnico da animação, torna-se já redundante falar de como as personagens se mexem ou como todos os elementos parecem verdadeiros num filme da Pixar. Vou atrever-me a ir um passo mais à frente e não falar em imagens geradas por computador, mas referir a qualidade da fotografia nas cenas de exteriores, a excelente interpretação do boneco de Peter O'Toole, aqui a encarnar um crítico culinário com todos os tiques e expressões que imaginamos num crítico implacável (de qualquer área). Pode mesmo ser encarado, em conjunto com o Chef Skinner, como a vizualização perfeita do que é o vilão no Cinema. O crítico Anton Ego com o seu aspecto esguio e rodeado por uma coloração cromática mais negra e Skinner apresentando uma deficiência física, ainda que subtil: é o mais baixo de todas as personagens, envergando ambos olheiras bastante profundas. As restantes personagens são criadas de tal forma que é inevitável não sentir de imediato uma forte ligação com elas. (A isto chama-se carisma, algo que faltava no filme de que falei mais abaixo.)

Durante muito tempo foi um problema para a Pixar o aspecto das suas personagens humanas, desde o aspecto a cair para o realista de “Toy Story”. Este é um problema que parece estar mais do que ultrapassado com a afirmação do look mais cartoonesco das suas personagens, o que chega até a permitir a Linguini alguns dos momentos mais hilariantes do humor slapstick dos ultimos anos cinematográficos.

Falta referir o mais importante: o argumento, a estória, a forma como a trama é apresentada ao espectador e como este reage perante desenvolvimentos apresentados no ecrã. Também aqui Ratatouille se revela um sucesso. A estória segue o seu próprio ritmo, sem nunca se apressar para atingir determinado objectivo ou evoluir para o próximo patamar. Até a estória de amor parece surgir de forma natural, sem ser apressada ou colocada à pressão apenas para encher mais um pouco de tempo.
Sim, é um filme de animação, mas nem por isso deixa de mostrar todos os aspectos necessários para ser categorizado na estante do Cinema, com maíuscula, apresentando mesmo alguns dos planos e movimentos de câmara que já vi este Verão.

P.S. Assim que estrear um certo filme com uma certa abelha logo se verá qual dos dois é que leva para casa o troféu com o coração do público.

21 agosto 2007

Mais um... E a paciência a diminuir...

“A Ultima Legião”
Real: Doug Lefler
Com: Colin Firth, Ben Kingsley, Aishwarya Rai, Thomas Sangster
EUA, Reino Unido, França, Cor, 110 min.

460 D.C., o Império Romano é finalmente invadido pelos Bárbaros do Norte e o ultimo Imperador, o jovem de doze anos Rómulo Augusto capturado e enviado para a prisão de Capri. Aí, descobre uma espada à muito tempo perdida e, com os seus ultimos seguidores, foge para a Britânia, território onde se julga estar a ultima legião romana que não caiu sobre o domínio dos invasores da Cidade Eterna.
Há uma coisa que me irrita mais que um filme mau: um filme mau que poderia ter sido bom. É o caso. À partida, sabendo que o argumento tinha sido baseado na obra de um professor de arqueologia clássica, as expectativas já eram bastante boas: “ena, o tipo que escreveu o livro em que se baseia o filme percebe do assunto! E é italiano!”. Sim, é verdade. Chama-se Valerio Massimo Manfredi e a obra em causa tem o mesmo nome do filme. Mais expectativas: o Colin Firth até é bom actor. E, caramba, tem o Ben Kingsley! Depois o balde de àgua fria quando pesquiso o nome do realizador para dar um bocadinho mais de sumo no programa de rádio... Tem experiência em televisão... Em séries como “Xena- Princesa Guerreira” e “Hércules”... A única longa-metragem que realizou saiu directa para vídeo e era uma sequela do “Coração de Dragão”... E sim, a experiência televisiva faz-se notar e de que maneira! Até o estilo de comédia da séries que referi em cima pode ser encontrado de uma forma mais subtil.

Isto era o que sabia antes de ver o próprio filme e decidi mesmo dirigir-me à sala, convencido com o aspecto aceitável do trailer.

A primeira coisa a saltar à vista é a banda-sonora. Não, não me enganei, a banda sonora deste filme chega a ser irritante dada a aparente necessidade sentida pelo realizador de pontuar 90% das cenas com música. Não devo errar em muito a percentagem e chega a ser angustiante ter de aguentar tanta musica quando a ausência da trilha sonora podia servir muito melhor para acentuar e aumentar a intensidade dramática de várias cenas. Colin Firth e Ben Kingsley não são nomes habituais em épicos ou no cinema peplum e têm performances distintas. (apesar de já não estarmos no espectro temporal da Antiguidade Clássica, tudo o que tenha Romanos é normalmente classificado como Peplum: reclamações para o mail do costume). Firth aproveita as poucas linhas de diálogo com que todas as personagens são brindadas para agarrar bem o papel de Comandante em busca do fim das mortes mas disposto a uma ultima batalha para cumprir o juramento sagrado. Já Kingsley... é Kingsley! Admitamos: Ben Kingsley não tem grande carisma. É um óptimo actor, mas não consegue que os espectadores gostem dele apenas porque sim. Recordo para este efeito “House of sand and fog” e a performance fantástica que obriga o espectador a sentir a dor daquela personagem, mas o magnetismo que leva o publico a querer o sucesso daquela personagem não é o forte dele. Neste filme, para piorar o cenário, o argumento não o ajuda em nada e a sua personagem tem o carisma de um carapau congelado. Portanto, alguns bons actores e outros que deixam algo a desejar, com o destaque a cair direitinho para os Godos que tomam a capital do Império.

Referi no início o autor do livro e a credibilidade que lhe é conferida pelo seu estatuto profissional. Pois bem, este material é muito raramente aproveitado para o Cinema, a queda do Império Romano, e tem potencial pois é uma boa oportunidade para dar ao público o final da grandiosidade transmitida em outros filmes do género. Um pouco o final da festa que se viu em clássicos como “Ben-Hur”, “Spartacus” ou mesmo o mais recente “Gladiador”. Não duvido do potencial que poderá estar incluído no livro, até porque de acordo com os créditos finais, este filme é baseado apenas em “parte da obra”, no entanto não é díficil notar uma certa espiral de qualidade descendente até ao final do filme, com os diálogos a tornarem-se ainda piores do que já eram e com a grande batalha final a ter um final absolutamente ridículo...

16 agosto 2007

O Lado Negro da Força

E o pior filme de todos os tempos é...
É sempre complicado elaborar uma lista dos piores ou melhores, e normalmente abstenho-me dessas considerações (até por não as achar lá muito uteís), mas desta vez, não posso deixar de assinalar o facto de alguém se ter dado ao trabalho de vasculhar no imenso esgoto da indústria cinematográfica e retirar alguns dos maiores destroços flutuantes que normalmente só se encontram em... Acho que já fui suficientemente desagradável. A lista completa a partir daqui.

15 agosto 2007

Gondry de volta

Chama-se "Be Kind, Rewind" e é próximo flme do francês Michel Gondry. Com Mos Def e Jack Black nos principais papeís, conta a estória de um empregado de um videoclube (Def) que vê as cassetes inadvertidamente magnetizadas pelo seu melhor amigo (Black) e, desta forma, inutilizadas. Para salvar o emprego decidem então filmar novas versões de clássicos como "Robocop", "Driving Miss Daisy" e "Ghostbusters". Com um aspecto muito parecido com a saudosa sitcom "Paraíso Filmes", tem data de estreia nos Estados Unidos marcada para dia 21 de Dezembro. O trailer está aqui.

14 agosto 2007

Células estaminais e prostitutas holandesas

Prova do "savoir-faire" de timing cómico do Steve Carell é este excerto da extinta rubrica "Even Stevphen" num Daily Show que deverá ser de 2003 ou 2004. Nesta rubrica tanto Steve Carell como Stephen Colbert entravam em acesas discussões sobre um tópico, normalmente com opiniões diametralmente opostas (como convém nestas situações). Hoje em dia Carell é a estrela da versão americana de The Office, na NBC, enquanto que Colbert continua na Comedy Central, mas no seu próprio programa, um spin-off do Daily Show: The Colbert Report.




12 agosto 2007

11 agosto 2007

Post de ódio semanal

Que os MTV Movie Awards são rídiculos já todos sabíamos, com categorias tão credíveis como: Melhor Beijo, Melhor Vilão ou Melhor Cena de Luta. Mas esta, confesso, ainda não conhecia: "Best Summer Movie You Haven't Seen Yet". O vencedor foi "Transformers" e a lista de nomeados é ainda mais patética...
“Evan Almighty”
De:
Tom Shadyac
Com: Steve Carrell, Lauren Graham, Morgan Freeman
EUA, 2007, Cor, 95min

Evan Baxter acaba de se despedir da televisão onde trabalhava para se transformar no Congressista Evan Baxter. No entanto, o seu slogan de campanha “Vamos mudar o mundo” atraiu a atenção de Deus que o vai incumbir de repetir a tarefa de Noé.
Gosto de Steve Carrell. É um excelente actor de comédia, com um timing de entrega muito bom e com um passado de aprendizagem no Daily Show. Posto isto, não há muito mais de positivo a dizer deste filme. Altamente antecipado, devido ao seu elevado orçamento (175 milhões de dólares) que o transformaram na comédia mais cara de sempre, e também porque Carrell é O comediante do momento nos Estados Unidos. Certamente que conseguirá uma boa performance nas bilheteiras, mas não ficará na memória de muita gente e o próprio Carrell o deverá lembrar como não mais do que “o-filme-que-me-pagou-a-casa-de-férias”.
Mas falemos então do próprio filme e das impressões que me causou. Apesar de ter alguns bons pormenores humorísticos, alguns até de referência ao próprio actor principal (o cameo de Jon Stewart; um filme em exibição numa sala de cinema), na generalidade a comédia reduz-se ao humor físico mais básico: Evan tropeça num pedaço de madeira; Evan horroriza os mais próximos com a sua barba enorme; Evan acerta no dedo quando tenta martelar um prego. O tom que percorre todo o filme é o de uma tentativa de evangelização da plateia, por vezes disfarçada transformando o filme numa comédia desonestamente moralista, outra vezes não escondendo a sua tentativa de apelar ao público do “Bible-Belt” norte-americano.

Tom Shadyac não desilude mas também não deslumbra, uma realização competente q.b.. No entanto, e contrariando a tendência normal para a perfeição visual das grandes produções americanas, não é difícil de notar o aspecto sujo da fotografia, mais facilmente visível quando a acção pede rápidos movimentos de câmara. Outro aspecto visual que os diversos trailers anunciavam de forma menos airosa são os efeitos visuais. Com um orçamento a roçar as duas centenas de milhões de dólares, seria de esperar um maior cuidado visual com o aspecto final do filme. Tal não se verificou e são facilmente identificáveis quais as figuras adicionadas em pós-produção e quais as que estavam mesmo no plateau.

Como já escrevi, é nos pequenos pormenores que o filme revela a sua veia mais humorística mas, agora olhando para o plano mais geral, a nível do argumento, custa ver como a comédia que podia transformar este num bom filme, é constantemente subjugada pela tentativa de passar uma mensagem. Mensagem essa (o mundo pode ser mudado com um acto de bondade de cada vez), que parece direccionada a um público demasiado específico, e sempre apresentada como se a audiência fosse composta por alunos do ensino primário. A pretensão de tocar e modificar a alma do público acaba por prejudicar a comédia que, mantendo-se honesta e não tendo medo de ser comédia teria muito mais a ganhar.
A destacar ainda a performance de Lauren Graham, que depois do papel em “Bad Santa” (2003, Terry Zwigoff) parece, infelizmente, destinada a alternar uma carreira televisiva com papeís secundários em filmes menores. Uma ultima palavra ainda para Steve Carrell: esperamos melhor de “Get Smart”, a estrear no próximo ano.

05 agosto 2007

Leões e Cordeiros

À algumas semanas atrás falei do próximo projecto do Sr. Redford. Tenho agora mais pormenores e um poster:

É a primeira produção da United Artists desde que Tom Cruise e Paula Wagner tomaram conta do estúdio e teve um orçamento de 35 milhões de dólares ( uma pechincha nos States, um sonho erótico para a indústria portuguesa).

Janela pouco discreta

“Paranóia”
De: D.J. Caruso
Com: Shia Laboeuf, David Morse, Sarah Roehmer
104 min; EUA, Cor, 2007


Kale é um jovem em prisão domiciliária, e descobre que ao vigiar a vizinhança através das janelas de casa consegue atenuar o tédio de estar fechado em casa durante os meses de Verão.

Tenho uma paranóia em relação aos “remakes”: tenho sempre receio de os ver, porque o original já era bom e não havia necessidade de lhe mexer e, como se costuma dizer- “Don't fuck with the Classics!” No entanto, em relação a este “Disturbia” as minhas esperanças estavam algo positivas porque o trailer tem bom aspecto, o Shia Laboeuf confirma-se como bom actor, “The Next Big Thing” provavelmente, e o David Morse é o David Morse, nunca desilude naquele seu estilo estou-mal-disposto-e-lixo-a-vida-a-quem-se-meter-comigo.

Mas comecemos pelo inicio. Kale (Laboeuf) perde o pai num acidente de viação na viagem de regresso depois de uma ida à pesca e, diga-se de passagem, é capaz de ser o acidente de viação mais estúpido que já vi no Cinema. A partir daí o jovem, fruto de uma relação próxima com o pai, passa a ferver em poiuca água quando alguém invoca o nome do sacrossanto progenitor. Corta para a aula de Espanhol quando o azarado professor resolve clamar pelo pai do protagonista e acaba por levar com um punho nos queixos como resposta. Sentem-se numa sala de cinema? Neste momento eu pensei que estava em casa, a assistir a um qualquer telefilme de sábado à tarde que assenta na grande temática dos jovens perturbados com a ausência de figuras paternais. Em frente, no entanto...
D.J. Caruso é um realizador com mais experiência no mundo da televisão que no do cinema. Infelizmente para o espectador, este pormenor é por demais evidente. São poucos os planos que nos lembram que, afinal de contas, é um filme que estamos a ver. Sendo este filme uma recontextualização de “Janela Indiscreta”, era expectável a tentativa de reproduzir os momentos em que Hitchcock era especialista: “o suspense”, o piscar de olho subtil ao espectador, sugerindo que alguma coisa estava para acontecer, sem nunca revelar demasiado e mantendo a respiração do filme em modo ofegante (ver a mítica cena da chegada dos Pássaros à escola). Não existe em “Paranóia” uma sequência, uma cena, um frame em que o espectador sinta algo de levemente próximo. Para um filme que é vendido como thriller, é algo digno de nota...
No entanto, o filme fará sucesso entre as camadas mais jovens. Tem os estereótipos perfeitos do género teen movie: o jovem perturbado; a gaja boa e hiperconfiante mas que até tem coração; e o melhor amigo disposto a fazer quase tudo pelo protagonista.

Previsível e aborrecido (apeteceu-me sair da sala a meio do filme), Shia Laboeuf e David Morse são mesmo os pontos positivos neste filme, o mais jovem a confirmar as boas indicações que tinha deixado em “Transformers” e o mais velho a cumprir o que faz normalmente, com destaque para o seu penteado “à Santana Lopes”.